É fascinante ver que mesmo após quarenta anos de sua separação, os Beatles ainda geram interesse e notícia. Finalmente após muito debate (e 22 anos) os discos da banda foram remasterizados e estão com qualidade sonora à sua altura. Ao mesmo tempo, a chegada do game Beatles Rock Band popularizou as canções do quarteto com toda uma nova geração de jovens e crianças que provavelmente nunca compraram um cd na vida.
Ao se ouvir a discografia do quarteto, o ouvinte, além de se deliciar com as inúmeras grandes músicas, certamente ficará o espantado ao ver que em apenas sete anos John Lennon (guitarra base e vocais), Paul McCartney (baixo e vocais), Ringo Starr (bateria e vocais) e George Harrison (guitarra solo e vocais) foram de "Love Me Do" ao intricado medley que encerra o disco "Abbey Road".
Este especial foi criado especialmente para aqueles que não destrincharam a obra da banda nota como os "Beatlemaníacos" mais dedicados. Estão aqui todos os álbuns de carreira, os mesmos que acabaram de ser relançados com detalhes, curiosidades e um resumo do que você encontrará nos discos. Esperamos que vocês gostem e ouçam - ou reouçam, os álbuns depois de lerem.
Gravado em um só dia (se não contarmos as quatro músicas que já tinham saído antes em compacto), "Please Please Me" é um disco um tanto irregular, típico dos primeiros momentos do rock, quando os compactos eram mais importantes que os "LPs".
Ao mesmo tempo este é um trabalho cheio de energia, mostrando os Beatles ainda fortemente influenciados pelo período em que passaram tocando nas espeluncas de Hamburgo. A parceria Lennon e McCartney ainda não funcionava em sua plenitude e por isso o repertório conta com várias covers. Não que isso diminua o trabalho, afinal algumas delas se tornaram as versões definitivas como a de "Twist And Shout", originalmente gravada pelos Isley Brothers.
Este também conta com várias covers, mas mostra que a banda e seus compositores estavam em evolução. "With The Beatles" traz o grande sucesso "All My Loving" e canções menos conhecidas, mas muito importantes - "All I've Got To Do" talvez seja o primeiro powerpop já feito.
Novamente, algumas das versões presentes nele se tornaram tão famosas que praticamente substituíram os originais - notadamente "Till There Was You", que fazia parte de um musical da Broadway e "Please Mister Postman" das Marvelettes, um dos primeiros hits da Motown. "With the Beatles" tem mais curiosidades, como a primeira composição de George gravada pela banda (a boazinha "Don't Bother Me") e "I Wanna Be Your Man". Esta música, cantada por Ringo, foi também gravada pelos Rolling Stones, e se tornou o primeiro hit do grupo de Mick Jagger.
A primeira obra-prima da banda é a trilha sonora do filme homônimo, feito para capitalizar em cima da "Beatlemania", que já havia chegado com tudo aos Estados Unidos. O estúdio que só esperava um filme "de juventude" qualquer e estava mais preocupado com a trilha, acabou recebendo em troca além do disco, um dos melhores documentários do início dos anos 60.
Dirigido por Richard Lester, o filme ajudou a fixar no imaginário coletivo as personas dos Beatles: John o sarcástico, Paul o educado e atencioso, George o quieto e Ringo o simpático bonachão. "A Hard Day's Night" (ou "Os Reis do Iê Iê Iê", no Brasil) foi indicado ao Oscar de roteiro e trilha orquestrada.
O disco é o único da banda composto só por canções de Lennon e McCartney e deve conter a meia hora mais divertida de todo o pop. Afinal falar o que do álbum que tem além da faixa título "Can't Buy Me Love", "And I Love Her", "You Can't Do That" e "I'll Be Back"?
Estamos no fim de 64 e os Beatles se mostram exaustos após sucessivas turnês, filmagens e gravações. Como a gravadora exigia um novo disco para o natal, o jeito foi se espreguiçar e ver o que dava para fazer.
O segundo filme estrelado pelo grupo foi feito com orçamento maior e em cores (algo que ainda não era muito comum). Esse dinheiro extra permitiu filmagens em locações nas Bahamas e Suíça, mas isso não significa que "Help" seja um filme melhor que o antecessor, muito pelo contrário.
Já a trilha sonora é tão boa quanto a de "A Hard Day's Night". As sete primeiras faixas (o antigo LADO A) são as músicas do filme. Além de grandes hits como "Ticket To Ride", "You've Got to Hide Your Love Away" e a faixa título, músicas como "I Need You", a primeira grande composição de George, e "The Night Before" merecem destaque.
O segundo lado foi concluído na correria e tinha covers de Larry Williams, experimentos com country e mais uma música de George. Ah é, o disco tem também "Yesterday", que se tornaria a música mais regravada da história.
Quando os discos dos Beatles saíram pela primeira vez em CD em 1987, foi criada a coletânea "Past Masters", que em dois volumes separados juntavam as faixas da banda que não estavam nos álbuns oficias do quarteto.
Longe de ser uma mera compilação de restos e experimentos, os discos traziam alguns dos maiores sucessos da banda. Isso porque o grupo tinha por hábito não incluir seus compactos nos álbuns de carreira.
Nas edições remasterizadas os dois CDs simples viraram um só disco duplo. O primeiro disco deste pacote tem as músicas responsáveis pela explosão da "Beatlemania" tanto na Inglaterra com "From Me To You", quanto nos Estados Unidos e no resto do mundo, graças a sucessos como "I Want To Hold Your Hand", o primeiro número 1 deles nos EUA, e "She Loves You".
Para quem curte descobrir (ou redescobrir) músicas menos conhecidas o disco também é uma boa pedida por trazer boas canções que não foram tão massificadas, como "Yes It Is" ou "This Boy".
Prestem atenção também em "I Feel Fine" e sua introdução com distorção, algo bastante incomum e até chocante para a época e um dos grandes orgulhos de John Lennon.
O salto das composições fica mais do que evidente em "Nowhere Man", "Girl" ou "Michelle". "" também mostra que George Harrison compunha cada vez melhor, confiram "If I Needed Someone". "" também converteu muita gente que não achava que essa coisa de "Beatlemania" iria muito longe.
Por outro lado, disco também inclui "Run For Your Life", que com sua letra machista viria a desagradar Lennon. Anos mais tarde, quando já estava com Yoko Ono, uma grande feminista, ele veio a considerá-la uma de suas piores canções.
"Revolver" foi a reviravolta definitiva da banda. Cansados de tocar sem serem ouvidos, o grupo radicaliza e diz adeus às turnês. A partir de agora, quem quisesse ouvir os Beatles teria que comprar os discos.
A se julgar pelo que apresentaram nesse álbum, a decisão foi acertada já que este é um trabalho eclético e experimental, mas que nunca perde o foco ou o apelo pop. "Revolver" tem de tudo: grandes baladas de McCartney ("For No One", "Here, There And Everywhere", "Eleanor Rigby"), maluquices de primeira de Lennon em "Tomorrow Never Knows", "She Said She Said" e um George cada vez mais inspirado, seja no rock básico de "Taxman" ou em sua primeira, e mais feliz, incursão na música indiana com "Love You To".
Aqui, os Beatles mostram que a cada lançamento eles estavam evoluindo e ampliando os horizontes não só deles, mas também de seu público e de toda a música pop. Não à toa, o ano de 1966 foi um dos mais mágicos da história do rock. Ele também foi marcado pela chegada dos primeiros discos duplos do rock ("Blonde On Blonde" de Bob Dylan e "Freak Out" de Frank Zappa) e por "Pet Sounds" dos Beach Boys, tido como um dos melhores discos já gravados e influência decisiva nos próximos passos da banda de Liverpool.
Este é talvez disco que causou mais impacto na história. É difícil explicar hoje em dia o que foi a chegada de "Sgt. Peppers" aos ouvidos do mundo naquele ano de 1967.
Que a banda e todo o rock estava evoluindo isso era sabido, mas um disco assim ainda assim surpreendia, a começar pela capa dupla e com as letras impressas. E o que eram aquelas músicas e letras? E essa história de emendar várias canções sem espaços? E que sons e instrumentos são esses?
Com o passar dos anos, "Peppers" foi vítima de um certo revisionismo com muitos críticos culpando o álbum por uma onda de seriedade e intelectualização que tomaram conta do rock feito nos anos seguintes. A própria banda logo pisaria no freio e passaria a fazer um som mais básico, e assim também fariam os Rolling Stones e os Beach Boys.
Ainda assim, a força de "Peppers" é inegável. Após 42 anos, ele empolga tanto quem já ouviu o disco até não aguentar, quanto o novato que acabou de descobrir o som do grupo. "Sgt. Peppers" nasceu de um conceito de McCartney, que sugeriu um álbum em que a banda se "disfarçaria", o que os deixaria livres para fazerem os experimentos que bem entendessem.
As gravações foram das últimas vezes em que eles realmente estiveram unidos e isso fica claro em "Lucy In The Sky With Diamonds", "Getting Better" e principalmente "A Day In The Life", que com suas duas partes distintas e o final orquestrado apocalíptico, costuma ser eleita a melhor canção da banda sempre que críticos se juntam para fazer uma lista.
Ou o início do fim. Em 1967, as turbulências começam a surgir, especialmente depois da morte do empresário Brian Epstein, vítima de uma overdose de comprimidos, que sempre tinha sido uma espécie de apaziguador na banda.
Ainda em estado de choque, McCartney assumiu as rédeas e pôs o povo para trabalhar em cima de um filme pra ser exibido na televisão na época do natal. Dessa vez, eles não fariam uma fita cheia de risos e brincadeiras, mas sim uma obra mais experimental e improvisada.
O conceito era simples: um grupo de pessoas viajando em um ônibus sem saber o destino. O resultado final não foi dos mais felizes e a banda pela primeira vez se viu coberta de críticas. Hoje em dia, o filme até goza de certo prestígio com cineastas como Steven Spielberg defendendo o trabalho.
A trilha-sonora foi editada em um formato não muito convencional: um compacto duplo com seis faixas. Dessas, o maior destaque vai para "I Am The Walrus", uma grande viagem de Lennon que com as imagens do filme fica ainda melhor. Nos Estados Unidos, "Magical" saiu como um LP convencional.
Para completar o disco, foram usadas as faixas dos compactos recentes. Como entre essas músicas estavam "Penny Lane" e "Strawberry Fields Forever", talvez o mais célebre single de todo o pop e mais "All You Need Is Love", os americanos acabaram por transformar o que seria um disco menor em uma grande obra.
Em 1976, essa versão foi lançada em todo o mundo e é ela que segue em catálogo.
Apesar de só ter saído em 1969, a trilha do desenho animado tem mais a ver com o clima psicodélico e alegre de dois anos antes. Este é provavelmente o único disco dispensável da banda - se é que dá pra chamá-lo assim. Afinal metade dele é composto pela trilha incidental do filme, composta pelo produtor da banda George Martin, e não conta com nenhum Beatle a não ser na composição de "Yellow Submarine", que aparece em uma versão orquestrada.
Na outra parte, além da faixa título e de "All You Need Is Love", ambas já lançadas, há apenas outras quatro músicas. "Hey Bulldog", um rock de Lennon, é de longe a melhor delas. "All Together Now" é mais uma música de McCartney com jeito de cantiga de roda e duas faixas de George que haviam sido deixadas de fora dos dois últimos discos acharam um lugar na discografia da banda.
Ou seja, nada de muito espetacular, mas se você já tem todos os outros discos provavelmente acabará comprando esse também, nem que seja pra não deixar a coleção incompleta.
Aqui o grupo decidiu dar um basta ao psicodelismo e voltar para um som mais básico. O resultado foi uma longa e cansativa maratona com certas músicas chegando a ser gravadas mais de 100 vezes até se chegar a um take aceitável. O clima pesou tanto que Ringo, não mais aguentando, saiu da banda (ele voltaria uma semana depois após pedidos insistentes dos outros três). Para completar, todos estavam intransigentes e não queriam abrir mão de suas composições. Isso forçou o lançamento de um LP duplo.
Com Lennon e McCartney trabalhando em separado, não surpreende que o disco pareça mais um álbum feito por solistas do que por um grupo. Esse foi o primeiro trabalho do grupo lançado da Apple, nome não só do selo como de uma gama de empreendimentos que quase os levou à falência.
No fim, não deixa de ser engraçado notar que o "Álbum Branco" é o trabalho mais sombrio do grupo. Uma fama que o persegue desde que Charles Manson declarou que a série de assassinatos cometidos por seus seguidores em 1969 foram inspirados diretamente por canções desse disco como "Piggies", "Blackbird" e especialmente "Helter Skelter".
Apesar de ter saído em 1970, ele na verdade foi gravado no início de 1969. "Let It Be" foi mais uma ideia de McCartney, que sugeriu que a banda voltasse aos palcos. Os ensaios para os shows seriam filmados e disso sairia um filme.
Na teoria tudo muito bom, mas na prática a coisa foi diferente. Após anos só tocando em estúdio, os quatro já não tinham mais o mesmo entrosamento de antes. As filmagens deveriam ser feitas nos horários estabelecidos pelo sindicato da indústria cinematográfica, o que significava que deveriam começar logo pela manhã.
A presença da nova namorada de John, Yoko Ono, também incomodava os outros e logo ficou claro que os tais shows não iriam ocorrer. As discussões eram constantes e dessa vez foi George quem não aguentou mais e pediu pra sair, cansado do jeito mandão de McCartney (Harrison também rapidamente reconsiderou sua decisão).
As coisas começaram a melhorar com a chegada do tecladista Billy Preston e assim "Let It Be", "Across The Universe", "Get Back" e "Two of Us", foram tomando forma. Como eles precisavam de um clímax para o filme e os shows haviam sido abortados, a decisão foi a de fazer uma apresentação surpresa no próprio telhado da Apple, no que seria a última aparição pública dos quatro.
O material resultante, que deveria sair em um álbum chamado "Get Back", não se mostrou forte o bastante e o projeto foi encaixotado.
Em 1970 com o filme para sair e com a banda já praticamente extinta, era preciso dar um jeito naquelas músicas. Para isso, o produtor Phil Spector, que reinou no início dos anos 60 (vide "" das Ronettes) foi chamado. Phil fez o que seria esperado dele: encheu as fitas originais com orquestras e overdubs, traindo assim o espírito original de "rock básico" do projeto. A decisão enfureceu McCartney, que nunca o perdoou pelo arranjo sentimental criado para "The Long And Winding Road". Foi com esse disco que o mundo "velou" o fim dos Beatles e por que não dizer, dos anos 60 como um todo.
Em 2003 foi lançado "Let It Be Naked", com algo mais próximo à ideia original do disco. O resultado dividiu fãs e críticos. No fim, o melhor mesmo é ficar com a versão que saiu em 1970, mesmo com suas falhas mais do que evidentes.
Por incrível que pareça, a derradeira vez que a banda se reuniu em estúdio, teve pouco ou nada do clima de guerra dos últimos encontros, em algo próximo à sensação de serenidade que antecipa a morte. Aqui, os quatro parecem dispostos a mostrar que ainda havia amor pela banda, por sua música e entre seus integrantes.
"Abbey Road" é basicamente dividido em duas metades. A primeira urgente e roqueira tem mais a cara de Lennon, mesmo que ele só tenha composto duas de suas seis faixas (vale lembrar que apesar da assinatura Lennon/McCartney foram poucas as canções escritas efetivamente pelos dois). Já o lado B, elaborado e cheio de detalhes, é puro McCartney.
Ouvir "Abbey Road" traz uma mistura de satisfação e melancolia. Satisfação por saber que a banda terminou no auge, poupando os fãs de trabalhos inferiores ou burocráticos. A tristeza surge quando se percebe a força incrível que eles tinham quando unidos. O fato é que, por melhor que sejam alguns dos discos solo lançados por eles a partir de 1970 (e pelo menos uma meia dúzia deles é antológico), a verdade é que o nível que os quatro tiveram enquanto juntos jamais foi equiparado.
O lado mais experimental também se faz presente em "The Inner Light", uma boa canção de George, ou na maluca "You Know My Name (Look Up The Number)" que junta comédia, trucagens de estúdio e um solo de saxofone de Brian Jones, o guitarrista dos Rolling Stones morto em 1969.
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